Givat Kobi: a “zona de interesse” de Gaza
Onde genocídio e espetacularização da violência se encontram
Gaza vista desde a colina de Givat Kobi. Foto: Rogger Oliveira
Por Rogger Oliveira
“Depois de tudo o que passamos, é impossível acreditar que existam inocentes lá. Todos eles sabiam (da Operação Dilúvio de Al-Aqsa)”, me disse Tova Steiner1, na ocasião de um piquenique com sua família na colina de Givat Kobi, onde israelenses, como Tova, se reúnem casualmente para passar momentos de lazer e observar o rastro de destruição causado por Israel na Faixa de Gaza.
Ela estava acompanhada de seu marido e três filhos, dos quais o mais velho acaba de ingressar no serviço militar obrigatório das Forças de Defesa de Israel (IDF).
Do alto da colina de Givat Kobi, que se encontra nos arredores da cidade de Sderot, é possível ter uma vista panorâmica do território palestino ocupado. Desde os ataques de 7 de outubro de 2023, o local se popularizou enquanto área de lazer comum entre israelenses. A “diversão” em questão é observar ao vivo a destruição dessa porção da Palestina.
Devido a um projeto de documentação da ocupação israelense em diferentes instâncias da identidade e território palestinos, um dos meus objetivos era me aproximar o quanto fosse possível de Gaza e fazer registros correlatos às atrocidades que acontecem lá. No entanto, atualmente, jornalistas independentes ou vinculados a veículos internacionais de mídia não podem simplesmente entrar na Faixa de Gaza. Israel faz a manutenção do cerco ao seu redor e restringe o acesso, que só é possível para um jornalista por meio do cadastro junto ao Israel Digital Center. Esse departamento de mídia se dedica a refutar a existência de um genocídio em curso, levando influenciadores e jornalistas pró-Israel para excursões em zonas selecionadas da Faixa de Gaza, com escolta das IDF, para documentar o suposto cumprimento de respeito às liberdades civis palestinas em meio ao conflito. A iniciativa israelense tem como intuito angariar apoio público e é uma resposta direta à degradação orgânica que a imagem de Israel vem sofrendo desde o 7 de outubro de 2023, devido à exposição midiática, principalmente pelas redes sociais, de crimes de guerra e genocídio contra o povo palestino.
Em razão da impossibilidade de ser autorizado a acessar Gaza, decidi ir até a colina e documentar o rastro de destruição observado desde seu mirante. A cidade de Sderot, ao sul do Neguev, com uma população suburbana de aproximadamente 35.000 pessoas, exala uma atmosfera residencial, em completa indiferença ao fato de que a menos de 5 quilômetros dali bombas caem indiscriminadamente sobre civis palestinos que não têm acesso a direitos básicos. A sensação de normalidade que a vida cotidiana israelense transparece “do lado de fora dos muros” contrasta com relatos de organizações internacionais que denunciam o não cumprimento, por parte de Israel, das normas do direito internacional que garantem dignidade e insumos básicos em meio a conflitos armados nos territórios que ocupa.
Do lado israelense da barreira, famílias fazem churrasco ao ar livre, crianças voltam da escola a pé e supermercados oferecem oferta variada de alimentos. Seguir trivialidades de rotina a nada menos que 350 metros de uma zona confinada, bombardeada diariamente há mais de três anos, não gera reação na população em geral – a não ser pelos numerosos cartazes e adesivos colados em vias públicas em homenagem aos reféns israelenses capturados pelo grupo Hamas em 7 de outubro de 2023, sem qualquer menção de solidariedade ao povo palestino.
O testemunho desse grau de banalidade da violência, que ocorre na porta dos fundos de um genocídio televisionado, faz alusão direta ao filme Zona de interesse (2023), de Jonathan Glazer, que retrata a vida luxuosa de famílias de militares nazistas de alta patente enquanto residem ao lado do campo de concentração de Auschwitz. O filme pode ser comparado à atualidade não apenas por representar a normalização da violência contra “o outro”, mas pela consciência clara sobre o que acontece do outro lado do muro, sem que a moral coletiva do colonizador se sinta abalada. Pelo contrário, existe um senso moral de urgência no combate contra os inimigos, muitas vezes lançando mão de argumentos messiânicos para justificar que aquela terra pertenceria a Israel e seus cidadãos
A colina de Givat Kobi conta com uma área comum de lazer, um memorial e a atração principal: um telescópio que, por 6 shekels (aproximadamente 10 reais), permite a quem visita o complexo observar Gaza – completamente em ruínas – por cerca de 3 minutos. Quando cheguei ao topo, havia apenas um israelense, residente da cidade de Ashdod, no local. Ele preferiu não se identificar, mas revelou que trabalha na Força Aérea israelense. Em conversa, me contou que costuma vir à colina com frequência e a descreve como um lugar “perfeito para espairecer”.
O homem não se comunicava plenamente em inglês, mas, por meio de ferramenta digital de tradução, explicou enquanto sorria que observar Gaza de longe o deixava “relaxado”, e gesticulava em referência às explosões que acontecem lá apesar do cessar-fogo em vigor entre o Hamas e Israel, que, em completa impunidade perante o direito internacional, segue com sua campanha de bombardeios indiscriminados.
Ao longo da tarde, mais grupos chegaram à colina por diferentes razões. Dentre eles, militares para palestras motivacionais sobre as próximas ofensivas contra o Hamas, mas também grupos de turistas estrangeiros que, um após o outro, tiram fotos e posam para selfies em frente a uma Gaza sucateada e destruída. A atração vai além da desumanização recorrente do povo palestino, presente no cerne da identidade sionista, e se apresenta como um lugar dedicado à espetacularização do sofrimento e punição coletiva. A sua popularidade massiva dentro da sociedade civil israelense é uma resposta a qualquer tentativa de rebelião palestina que reivindique a liberação dos moldes etnocráticos do Estado de Israel. Um lembrete das consequências do mau comportamento.
Em Givat Kobi, conversei com Tova Steiner, uma israelense judia-ortodoxa-moderna que preferiu manter sua identidade anônima, mas concordou em responder algumas perguntas após pedir que tirasse uma foto dela, de seu marido e filhos, em um momento em família, com a Faixa de Gaza ao fundo.
A mulher, que reside na região da Galiléia, afirma não nutrir nenhum tipo de preconceito em particular contra os árabes. No entanto, paradoxalmente, reafirma seu suposto direito enquanto judia sobre aquela terra.
“Nossos antepassados foram vítimas do Holocausto e mereciam retornar a esta terra que nos pertence há milhares de anos. Sempre houve judeus em Israel e, quando você olha para o Oriente Médio, a grande maioria é árabe. Nós só temos este pedacinho de terra, por isso precisamos defender o que é nosso por direito.”
Ao indagá-la sobre o que pensa ao ver Gaza no horizonte – sem nenhum edifício intacto à vista, e considerando que a maioria de seus habitantes não faz parte do grupo Hamas – Tova responde: “Nós já tentamos muito, mas hoje é difícil sentir empatia pelo que acontece em Gaza. Depois de tudo o que passamos, é impossível acreditar que existam inocentes lá, mesmo mulheres e crianças. Todos eles sabiam [da Operação Dilúvio de Al-Aqsa que ocorreu no dia 7 de outubro de 2023].”
Questiono a israelense se, enquanto mãe, ela não tem medo de que seu filho mais velho seja enviado para Gaza por meio do serviço militar, e sobre as consequências que isso poderia gerar. Com um sorriso, ela responde que se preocupa, mas que, enquanto israelense, não é algo de que ela pessoalmente discorde, já que o sistema de conscrição militar é obrigatório para quase todos os cidadãos e é visto como um rito de passagem para a vida adulta: “Além do mais, precisamos dos nossos heróis para defender nosso povo.”
Nota
- Nome fictício, devido à escolha da entrevistada de permanecer anônima. ↩︎
***
Rogger Oliveira é jornalista multimídia com foco na cobertura geopolítica e social do Sudoeste Asiático e Norte da África (SWANA).
LEITURAS PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO

A Margem Esquerda | #43 abre com densa entrevista concedida pelo historiador palestino-americano Rashid Khalidi a Tariq Ali, artigos de Arlene Clemesha, Samah Jabr, Tithi Bhattacharya, Bruno Huberman e Ilan Pappe, ensaio visual do artista plástico palestino Yazan Khalili e poema de Rafaat Alareer, assassinado em dezembro de 2023 por um bombardeio aéreo israelense.


Caminhos divergentes, de Judith Butler
A partir das ideias de Edward Said e de posições filosóficas judaicas, Butler articula uma crítica do sionismo político e suas práticas de violência estatal ilegítima, nacionalismo e racismo patrocinado pelo Estado. Além de Said, reflete sobre o pensamento de Levinas, Arendt, Primo Levi, Buber, Benjamin e Mahmoud Darwish para articular uma nova ética política, que transcenda a judaicidade exclusiva e dê conta dos ideais de convivência democrática radical, considerando os direitos dos despossuídos e a necessidade de coabitação plural.
Ideologia e propaganda na educação, de Nurit Peled-Elhanan
A professora de linguagem da educação investiga os recursos visuais e verbais utilizados em livros didáticos de Israel para representar a população palestina. Mobilizando o arcabouço teórico e metodológico da análise crítica do discurso e da análise multimodal, Nurit Peled-Elhanan detalhada os mecanismos pelos quais esses materiais escolares moldam um imaginário de marginalização: o discurso aparentemente científico e neutro é, em realidade, carregado de signos de violência, desprezo e intolerância que oculta a população palestina.


Cultura e política, de Edward W. Said
Edward Said imprime uma visão universalista em suas análises sobre a questão palestina, inserindo-a no conjunto das grandes lutas pelo reconhecimento de todos os povos a afirmar sua identidade e ter sua expressão política. Sua obra denuncia o racismo ocidentalista, que tenta se legitimar como visão hegemônica do mundo, opõe-se à criminalização da luta do povo palestino e de todos aqueles considerados fora dos padrões da chamada civilização ocidental.
A liberdade é uma luta constante, de Angela Davis
Esta ampla seleção de artigos traz reflexões sobre como as lutas históricas do movimento negro e do feminismo negro nos Estados Unidos e a luta contra o apartheid na África do Sul se relacionam com os movimentos atuais pelo abolicionismo prisional e com a luta anticolonial na Palestina. A obra da intelectual e ativista Angela Davis ensina também a pensar a nossa luta em relação a todos os “condenados da terra”, como escreveu Frantz Fanon.
Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil, de Arlene Clemesha
A chamada “questão judaica” esteve e está no centro da história contemporânea. Não é de se estranhar que o judaísmo tenha lançado ao marxismo os maiores desafios à sua capacidade explicativa e transformativa. Neste livro, a professora e historiadora Arlene Clemesha passa em revista as metamorfoses dessa controvertida trajetória, desde o ensaio Sobre a questão judaica, de Karl Marx, até o clássico trabalho de Abraham Léon, escrito em pleno desenvolvimento do Holocausto, que ceifaria a vida do seu autor. Republicado em um momento de extrema gravidade para o povo palestino e para o judaísmo mundial, submetido a uma crise de consciência sem precedentes na era contemporânea, o livro busca, nas palavras da autora, “resgatar a história que a vitória do movimento sionista buscou ocultar, quando, em meados da década de 1950, tentou ressignificar o sionismo como a realização da luta histórica do povo judeu, relegando outras correntes e outros movimentos, de fato majoritários até o entreguerras, a meras notas de rodapé da história judaica”.
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